Um marco da reforma agrária no Espírito Santo

PA_GEORGINA_Antônio José e Idair Francisca Vicente_01

Na manhã chuvosa de 27 de outubro de 1984 começou a ser escrita, em São Mateus (ES), a história do assentamento Georgina, marco da política de reforma agrária capixaba. Levando na bagagem o sonho de conquistar vida melhor, cerca de 370 famílias de trabalhadores rurais do município e de nove cidades vizinhas realizaram a primeira ocupação de terras no Espírito Santo.

Depois de terem sido retirados da área onde tinham resolvido se estabelecer, todos foram deslocados para o km 41 da BR-381. Lá permaneceram acampadas por aproximadamente 40 dias, até o governo estadual destinar o imóvel rural que as abrigaria. Surgia, então, o assentamento estadual Vale da Vitória em 19 de maio de 1986. Posteriormente, em 12 de novembro de 1986, bem ao lado, foi criado o Georgina. E mesmo não sendo oficialmente o assentamento mais antigo do Incra no estado, é considerado pelos trabalhadores rurais o mais emblemático.

Do grupo inicial de acampados na região, 80 famílias tiveram como destino aqueles quase 1.053 hectares. Outras acabaram sendo distribuídas em quatro pequenos assentamentos criados estado e reconhecidos posteriormente pelo instituto (Córrego Grande, para onde foram 27 famílias; Pratinha, 17 famílias; Vale da Vitória, com 39 famílias e São Vicente, que recebeu 5 famílias).

Embora os primeiros anos tenham sido marcados por dificuldades, a conquista do lote mudou a história de vida de muita gente, que hoje desfruta o resultado do esforço empreendido. Contribuíram para isso as boas condições de infraestrutura e a produção com preços de comercialização acima da média propiciada pelo café e a pimenta-do-reino (culturas simbólicas nos municípios da região Norte do Espírito Santo).

Pioneiro
Nesses 34 anos, o agricultor José Rodrigues Lima, prestes a se tornar septuagenário, recorda os “perrengues” e os momentos agradáveis no lote em que criou os nove filhos do casamento com dona Florentina Vigário Lima, de 64 anos. O caçula, José Carlos Vigário Lima, tinha apenas quatro meses quando a família foi assentada. Atualmente, trabalha embarcado durante 15 dias a cada mês em uma plataforma de petróleo. Mesmo assim, durante as folgas, continua a auxiliar o pai nas atividades produtivas.

Intitulando-se o primeiro a plantar café no local, Lima tem 18 mil pés do fruto. A produção este ano foi um pouco menor em relação a outros por conta de mudanças no clima, ainda assim, conseguiu vender 250 sacas, ganhando em torno de R$ 75 mil.

Ele também se dedica ao cultivo de três mil pés de pimenta-do-reino. As cerca de três toneladas obtidas adicionaram R$ 25 mil à renda familiar. Para o sustento próprio cultivam milho, feijão, aipim, têm galinhas, perus e galinhas-d’angola, além de um tanque contendo cerca de mil peixes de várias espécies.

Perguntado se gosta de residir no assentamento Georgina, não titubeia: “Gosto tanto a ponto de o lote ter ficado pequeno pelo tanto que já exploramos ao aproveitar todo espaço possível com café e pimenta”.

Tradição
Em virtude de problemas de saúde, Otacílio Zanoni, de 68 anos, passou a gestão da parcela ao filho Fábio, de 33 anos, e à nora Fernanda Aparecida da Silva Zanoni, de 25 anos. Ele se diz orgulhoso por ter tido acesso ao Programa Nacional de Reforma Agrária e ver os quatro descendentes trabalhando na roça, como assentados ou em terras adquiridas a partir da própria dedicação.

“Dou graças a Deus, porque fiz tudo o que eu queria fazer, e hoje é meu filho que trabalha até pocar”, fala, ao estilo capixaba – no qual “pocar” significa estourar, arrebentar.

Ainda estando aposentados, ele e a esposa, Maria do Carmo Capelini Zanoni, de 67 anos, cultivam uma pequena área de pimenta nas proximidades do quintal e criam galinhas, preservando a mata existente nos fundos da casa. Adepto às ações coletivas, por mais de duas décadas e meia foi o presidente da Associação de Agricultores Familiares e Assentados de Nestor Gomes (Afang), tendo deixado o cargo em 2020.

Ao chegar da roça, o filho fez questão de receber os “visitantes” e contar o quanto é realizado por continuar mantendo a tradição familiar. Eles têm 20 mil pés de café, que este ano renderam 301 sacas do produto pilado (algo em torno de R$ 110 mil).

Também plantam cinco mil pés de pimenta-do-reino. Cinco toneladas geraram R$ 30 mil. Fábio Zanoni deixa claro: “Estou satisfeito demais. Daqui só saio para passear por, no máximo, uns cinco dias, e volto depressa”.

Disposição
Arrependimento não faz parte do vocabulário de Antônio José Vicente, 79 anos. Acompanhado da esposa, Idair Francisca Vicente, 77 anos, conta ter sido meeiro de nove patrões. “Todos confiavam em mim, a ponto de um ter fornecido toda a madeira para a construção de minha primeira casinha no lote que está de pé até hoje, após 35 anos de lida”.

Segundo ele, os oito meses debaixo da lona valeram a pena. “Quando chegamos era mata pura, tivemos de abrir picadas. Aqui criei oito filhos e quatro deles trabalham comigo, mas cada um tem seu pedacinho de terra para cuidar”.

No sítio Georgina, como carinhosamente chamam a parcela, a produção do casal junto com a dos filhos chegou a 120 sacas de café pilado em 2020. Dos oito mil pés de café tiraram R$ 43,2 mil. No caso dos quatro mil pés de pimenta-do-reino plantados, as 4,5 toneladas colhidas corresponderam a R$ 31,5 mil. A alimentação diária é garantida pelo cultivo de coco, banana, cana, feijão, mandioca, muitas galinhas e peixes (tilápias, tambaquis, traíras, etc.) criados em três tanques.

Apesar da idade, “seo” Antônio esbanja saúde e disposição. “Até se equilibrar um pouquinho, o troço não foi fácil. Depois foi melhorando devagarinho. É coisa que a gente não larga pelo trabalho e o esforço que fizemos”, relata.

Afang
Conforme destaca o atual presidente da Associação de Agricultores Familiares e Assentados de Nestor Gomes (Afang), Célio Gomes Rodrigues, o assentamento tem buscado novas alternativas de geração de renda. São 31 associados.

Em janeiro de 2021, por exemplo, planejam já terem a licença sanitária emitida pela prefeitura de São Mateus em mãos e, assim, voltarem a fazer bolos, pães e massas na agroindústria existente no assentamento. A retomada dependeu de alteração no estatuto da entidade, assim,

seis famílias envolvidas na atividade poderão fabricar esses produtos e, ainda, participar de programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

A agroindústria funciona em um prédio com boas instalações. A associação tem equipamentos como secador de café, além do caminhão usado no transporte e escoamento da safra, e trator que otimiza as ações produtivas.

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